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Você conhece a história dos imigrantes italianos no Brasil?


No século XIX, o Brasil era um país continental e pouco povoado. O primeiro censo, em 1872, registrou cerca de 10 milhões de habitantes. Ao mesmo tempo, o Império, sob a liderança de Dom Pedro II, buscava alternativas para substituir gradativamente a mão de obra africana escravizada, cuja abolição já se anunciava como inevitável. A solução encontrada foi incentivar a imigração europeia — e a Itália tornou-se um dos principais alvos dessa campanha.


A Itália recém-unificada (1859–1870) vivia uma realidade dura. Com cerca de 22 milhões de habitantes, era um país de contrastes e miséria em muitas regiões. Famílias inteiras passavam fome. Não por acaso, milhões decidiram partir. O Brasil recebeu cerca de 1,5 milhão de italianos; a Argentina, 3 milhões; os Estados Unidos, 6 milhões. Era o sonho da América.


A propaganda brasileira era sedutora: terras férteis, trabalho farto, moradia, escolas para os filhos. “Venha colher café com facilidade”, prometiam. Mas o caminho até esse sonho era longo e cruel. Muitos camponeses caminhavam dias ou semanas desde vilas do Vêneto e da Lombardia até o porto de Gênova. Dormiam ao relento, enfrentavam o frio, levavam poucas sacolas com algum alimento. Embarcavam em navios superlotados, amontoados no porão da terceira classe, onde a viagem de 25 a 36 dias se tornava um teste de sobrevivência. Doenças se espalhavam com rapidez. A fome e a desidratação ceifavam vidas. Corpos eram enrolados em lençóis e lançados ao mar. Essa foi a realidade dos meus avós e bisavós.


Em 21 de fevereiro de 1874, o navio Sofia aportou em Vitória, no Espírito Santo, com 380 italianos. A data tornou-se o Dia do Imigrante Italiano no Brasil. Muitos desses pioneiros fundariam Santa Teresa, no interior do estado, a primeira cidade brasileira criada por imigrantes italianos no país. Ao chegar, descobriram que nem todas as promessas eram reais. A terra exigia desbravamento. A moradia era precária. O trabalho era árduo. Ainda assim, resistiram.


Há uma carta célebre de um imigrante respondendo a um ministro italiano que pedia que o povo não abandonasse a pátria: “Como chamar de nação um país onde colhemos uva e não bebemos vinho, plantamos trigo e não comemos pão, cuidamos dos animais e não comemos carne? Só há polenta em nossos pratos, enquanto vemos filhos e vizinhos morrerem de fome. Querem nos privar até de tentar uma vida melhor?” Era o grito de quem não partia por aventura, mas por necessidade.


Sou descendente das famílias Isotton e Zanini, da província de Belluno, no Vêneto, e Merísio e Sangalli, da província de Bérgamo, na Lombardia. No Brasil, Isotton virou também Izoton. A grafia mudou; a coragem permaneceu. Hoje mantenho contato com parentes na Itália e possuo cidadania italiana. Quando alguém da família enfrenta dificuldades, costumo lembrar — quase como consolo — que o sofrimento de hoje é muito pequeno perto do que viveram aqueles que cruzaram o oceano.


O Brasil abriga atualmente cerca de 32 milhões de descendentes italianos, a maior comunidade fora da Itália. Muitos fazem o caminho inverso, buscando a cidadania e redescobrindo suas raízes. Eu mesmo compus a música e o vídeo clipe “Ai nostri nonni”, em homenagem aos meus avós, incorporando palavras do dialeto vêneto que meu avô e minha mãe, quando adolescente falavam. Não é erro de grafia; é uma licença poética, ou melhor, memória afetiva. As imagens são da época da imigração italiana.


Conhecer essa história não é apenas revisitar o passado. É entender que parte do Brasil foi construída por homens e mulheres que chegaram com quase nada — exceto coragem e fé em Deus. Honrar seus nomes é reconhecer que, se hoje colhemos frutos e temos uma vida digna, é porque alguém, antes de nós, enfrentou o mar, a fome, doenças e a incerteza para plantar esperança em solo brasileiro. Gratidão “ai nostri nonni e bisnonni italiani”!

 
 
 

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