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Você se considera um democrata?


A resposta costuma ser automática. “Sim, claro.” Em tempos modernos, declarar-se democrata é quase um reflexo moral. A democracia virou sinônimo de virtude. Mas basta aprofundar um pouco a conversa para perceber que esse consenso é menos sólido do que parece — e cheio de contradições.


A palavra democracia nasce na Grécia Antiga, por volta de 510 a.C., a partir de demokratía: demos (povo) e krátos (poder). Em tese, o poder emanaria diretamente do povo. Na prática, já naquela época, mulheres não votavam, estrangeiros eram excluídos e parte dos cidadãos não participava das decisões. No berço de sua origem, a democracia nasceu incompleta — e talvez nunca tenha deixado de ser.


Segundo o dicionário Aurélio, democracia é um regime baseado na soberania popular, na distribuição equitativa do poder e na liberdade do voto. A definição é elegante. A realidade é mais ambígua. Pesquisa recente do Datafolha mostra que 69% dos brasileiros consideram a democracia a melhor forma de governo. Ao mesmo tempo, 8% admitem que, em certas circunstâncias, uma ditadura pode ser preferível; 17% dizem que tanto faz; e 6% não sabem responder. O discurso democrático existe, mas não é absoluto.


Outra pesquisa, divulgada pelo jornal O Globo, aprofunda essa ambiguidade. Muitos defendem a democracia, mas aceitam flexibilizar suas regras quando isso favorece seu campo ideológico. Defende-se o regime, mas aceita-se concentrar poder — desde que o poder esteja “do lado certo”, ou seja, do seu lado. O mesmo estudo mostra que 83% consideram muito importante proteger os direitos das minorias, enquanto 52% acham legítimo que a maioria possa restringi-los. A democracia, nesse contexto, vira um princípio maleável.


Lembro de uma cena emblemática dos anos 1970, quando eu era estudante de engenharia. Um professor perguntou quem era democrata. Todos levantaram a mão — era também uma forma de se opor ao regime militar. Em seguida, ele perguntou se achávamos que apenas pessoas com curso superior deveriam ocupar cargos públicos. A maioria concordou. A contradição ficou evidente: democracia pressupõe permitir que qualquer cidadão possa se candidatar, independentemente de formação acadêmica, desde que cumpra os requisitos legais.


Esse paradoxo aparece também nos concursos públicos. Em regimes democráticos, exige-se ensino médio ou superior para quase todos os cargos do Estado. Para a Presidência da República, não há exigência formal de escolaridade. A pergunta surge naturalmente: por quê?


Carlos Drummond de Andrade ironizou ao dizer que “democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder”. O ex-ministro do STF Luís Roberto Barroso observou que “a democracia assegura a liberdade, mas nem sempre previne a injustiça”. Winston Churchill foi mais ácido: a democracia é uma forma ruim de governo — mas ainda a melhor que conhecemos. Benjamin Franklin resumiu o dilema com sua metáfora incômoda: “Democracia é dois lobos e um cordeiro votando sobre o que será o jantar”.


No fundo, quase todos defendem a democracia. O problema começa quando as decisões democráticas não atendem aos próprios interesses. Nesse momento, o compromisso com as regras enfraquece. Talvez por isso a democracia ideal raramente sobreviva ao confronto com a democracia real. Como diz o velho ditado popular: quando a farinha é pouca, cada um quer garantir primeiro o seu pirão.

 
 
 

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